Comissão de 18% da Booking.com entra em vigor e hotelaria aciona o CADE: o que muda para hotéis, pousadas e o debate sobre dependência de OTAs

Marcus Rodrigues • 19 de outubro de 2026

Na quarta-feira, 1º de julho de 2026, a Booking.com implementou a nova taxa de comissão preferencial de 18% para os hoteleiros brasileiros participantes do Preferred Partner Program — o programa que oferece maior destaque nos resultados de busca da plataforma em troca de uma comissão mais elevada. A taxa padrão para hoteleiros fora do programa permanece em 15%.

A mudança já era esperada. O anúncio havia sido feito em maio, com prazo de menos de 60 dias para adaptação. Em resposta, as entidades do trade tentaram negociar: a Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) enviou dois ofícios à plataforma — o primeiro questionando o impacto, o segundo propondo a postergação da vigência para 1º de janeiro de 2027 com revisão dos percentuais. A Booking respondeu com justificativas genéricas sobre investimentos em infraestrutura e novas ferramentas de pagamento. Sem avanço substantivo na negociação, seis entidades formalizaram a representação no CADE em 23 de junho — dias antes da vigência.

A comissão entrou em vigor mesmo assim.

A comissão que entrou em vigor mesmo sob contestação

O movimento das entidades foi rápido e coordenado. A Federação Nacional de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares (FNHRBS), o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH Nacional), a Associação Brasileira de Resorts (ABR), a Brasil Luxury Travel Association (BLTA) e a FBHA protocolaram a representação formal no Conselho Administrativo de Defesa Econômica antes mesmo da vigência da nova taxa — na tentativa de obter uma medida preventiva que suspendesse a cobrança. O pedido, até o momento da publicação deste artigo, ainda aguardava decisão do órgão.

O que o setor pede ao CADE

A representação tem quatro pedidos centrais ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica.

Abertura de inquérito ou processo administrativo. Para apurar se a conduta da Booking configura abuso de posição dominante, nos termos da Lei de Defesa da Concorrência (Lei 12.529/2011). A plataforma concentra entre 40% e 60% das reservas intermediadas por OTAs no Brasil, segundo estimativas do próprio setor.

Medida preventiva de suspensão imediata. Pedido para que o CADE suspenda a implementação da taxa de 18% até o julgamento definitivo do caso. É a ação de maior urgência para o setor.

Sanções em caso de comprovação de infração. Multa calculada sobre o faturamento da empresa, restrição a contratos com bancos públicos e participação em licitações, além da cessação das práticas apontadas como ilícitas.

Transparência sobre a política comercial. Requisição de dados sobre participação de mercado da Booking no Brasil, documentação sobre a aplicação do mesmo reajuste em outros países das Américas e contratos-padrão com destaque para as cláusulas de paridade tarifária.

O argumento antitruste da hotelaria

O argumento central das entidades repousa sobre dois pilares: a posição dominante da plataforma e o efeito coercitivo do aumento.

Sobre a posição dominante: com 40% a 60% das reservas via OTA no Brasil, a Booking opera como infraestrutura essencial de distribuição para grande parte da hotelaria nacional, especialmente os hotéis independentes. Essa posição é reforçada pelas cláusulas de paridade tarifária, que limitam a capacidade dos hotéis de oferecer tarifas mais competitivas em seus próprios canais ou em plataformas concorrentes.

Sobre o efeito coercitivo: hotéis que optarem por não aderir ao Preferred Partner Program perdem posicionamento nas buscas da plataforma — o que afeta diretamente a visibilidade e, em consequência, a taxa de ocupação. A adesão, na prática, não é uma escolha livre. Para hotéis com mais de 70% das reservas originadas pela plataforma, a margem de manobra é mínima. Um hotel com receita mensal de R$ 150 mil e metade das reservas via Booking passará a desembolsar aproximadamente R$ 27 mil adicionais por ano apenas em comissão.

A posição da Booking.com

Em resposta às contestações, a Booking.com apresentou as seguintes justificativas: a taxa padrão no Brasil seguirá em 15%, e os 18% se aplicam exclusivamente ao programa Preferencial; a atualização é necessária para sustentar investimentos contínuos, incluindo novas ferramentas de pagamento, infraestrutura e suporte 24/7 em 45 idiomas; a plataforma manteve suas condições comerciais inalteradas no Brasil por 12 anos; e o Brasil era o último país das Américas a receber essa atualização.

Um cenário internacional adverso para a plataforma

A ação no CADE não chega isolada. Na Europa, a Booking enfrenta um conjunto crescente de pressões regulatórias e judiciais. Na Espanha, mais de 1,4 mil empresas hoteleiras e de turismo se organizam em ação coletiva alegando práticas comerciais abusivas ao longo de anos, com foco nas cláusulas de paridade tarifária. Há ainda multa recorde aplicada na Espanha, intervenção de preços na Suíça e investigação antitruste aberta pela autoridade italiana em abril de 2026.

Hoteleiros europeus articulam ação coletiva para recuperar até 30% das comissões pagas desde 2004, sob alegação de práticas anticompetitivas. Só na Alemanha, com cerca de 2.000 hotéis participantes, o dano estimado alcança 750 milhões de euros.

O que muda na prática para hotéis e pousadas

Independentemente do desfecho no CADE, a realidade operacional já mudou. A comissão está vigente. E o impacto é mais visível em três perfis de propriedade.

Hotéis independentes com alta dependência da Booking. Quem opera com 60%, 70% ou mais das reservas via plataforma sente o impacto imediato na margem, sem capacidade de negociação individual.

Hotéis que nunca priorizaram canal direto. A situação expõe uma fragilidade estrutural: sem base própria de hóspedes, sem motor de reservas funcional e sem presença ativa no Google Hotéis, o hotel não tem alternativa viável de curto prazo ao canal da OTA.

Hotéis que já investiam em diversificação. A comissão mais alta diminui a margem no canal afetado, mas a receita via canal direto ou outros canais compensam parcialmente o impacto.

O que fazer agora

A ação das entidades no CADE é o caminho institucional. Para o gestor individual, o caminho complementar é operacional.

Calcular o impacto real na sua operação. Percentual de reservas via Booking × receita média × diferença de comissão. O número concreto diz quanto custa a dependência e quanto seria recuperado com a redistribuição de canais.

Rever a participação no Preferred Partner Program. Alguns hotéis podem decidir que o custo de 18% não se justifica pela visibilidade adicional — e que a posição padrão (15%) ou a redução de dependência da plataforma geram resultado melhor no longo prazo.

Reforçar canal direto com urgência. Motor de reservas funcional, Google Hotéis atualizado, comunicação ativa com a base de hóspedes (CRM, WhatsApp, e-mail) e paridade tarifária bem gerida são os pilares.

Diversificar canais. OTAs alternativas, parcerias com agências receptivas, canal corporativo direto e WhatsApp como canal de fechamento distribuem o risco de dependência de uma única plataforma.

Um ponto de inflexão para a distribuição hoteleira brasileira

A ação no CADE pode ou não resultar em suspensão da taxa ou sanções. O que já está definido é que o debate sobre dependência de OTAs ganhou novo capítulo — com dados, cálculos e respaldo institucional.

Para a hotelaria brasileira, esse momento funciona como catalisador. A conversa sobre canal direto e diversificação de distribuição deixou o campo teórico e virou urgência financeira e estratégica. Quem sair desse ciclo com operação menos dependente de uma única plataforma chega ao próximo ano em posição estruturalmente mais forte.

Sobre a HQBeds

A HQBeds é a plataforma de gestão hoteleira all-in-one que conecta PMS, Channel Manager, Motor de Reservas, Check-in Online, Pagamentos e Notas Fiscais em um único ambiente. Atende hotéis independentes, pousadas, hostels e portfólios de imóveis por temporada de todo o Brasil, ajudando gestores a aumentar reservas diretas, reduzir tarefas manuais e crescer com mais previsibilidade.

Quer entender como a HQBeds pode apoiar a sua operação? Conheça a plataforma.

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