Comissão de 18% da Booking.com entra em vigor e hotelaria aciona o CADE: o que muda para hotéis, pousadas e o debate sobre dependência de OTAs
Na quarta-feira, 1º de julho de 2026, a Booking.com implementou a nova taxa de comissão preferencial de 18% para os hoteleiros brasileiros participantes do Preferred Partner Program — o programa que oferece maior destaque nos resultados de busca da plataforma em troca de uma comissão mais elevada. A taxa padrão para hoteleiros fora do programa permanece em 15%.
A mudança já era esperada. O anúncio havia sido feito em maio, com prazo de menos de 60 dias para adaptação. Em resposta, as entidades do trade tentaram negociar: a Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) enviou dois ofícios à plataforma — o primeiro questionando o impacto, o segundo propondo a postergação da vigência para 1º de janeiro de 2027 com revisão dos percentuais. A Booking respondeu com justificativas genéricas sobre investimentos em infraestrutura e novas ferramentas de pagamento. Sem avanço substantivo na negociação, seis entidades formalizaram a representação no CADE em 23 de junho — dias antes da vigência.
A comissão entrou em vigor mesmo assim.
A comissão que entrou em vigor mesmo sob contestação
O movimento das entidades representativas do setor não foi improvisado. FNHRBS, FOHB, ABIH Nacional, ABR, BLTA e FBHA agiram de forma coordenada, com respaldo jurídico e dados técnicos precisos. O argumento central é claro: a Booking.com concentra entre 40% e 60% das reservas intermediadas por OTAs no Brasil, segundo estimativas do próprio setor, e utilizou essa posição dominante para impor um aumento unilateral de custo com menos de 60 dias de antecedência e sem negociação prévia.
Para hotéis com mais de 70% das reservas originadas pela plataforma, a margem de manobra individual é mínima. Um hotel com receita mensal de R$ 150 mil e metade das reservas via Booking passará a desembolsar aproximadamente R$ 27 mil adicionais por ano apenas em comissão.
O que o setor pede ao CADE
A representação protocolada pelas seis entidades tem quatro pedidos centrais ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica.
Abertura de inquérito ou processo administrativo. Para apurar se a conduta da Booking configura abuso de posição dominante, nos termos da Lei de Defesa da Concorrência (Lei 12.529/2011).
Medida preventiva de suspensão imediata. Pedido para que o CADE suspenda a implementação da taxa de 18% até o julgamento definitivo do caso. É a ação de maior urgência para o setor.
Sanções em caso de comprovação de infração. Multa calculada sobre o faturamento da empresa, restrição a contratos com bancos públicos e participação em licitações, além da cessação das práticas apontadas como ilícitas.
Transparência sobre a política comercial. Requisição de dados sobre participação de mercado da Booking no Brasil, documentação sobre a aplicação do mesmo reajuste em outros países das Américas e contratos-padrão com destaque para as cláusulas de paridade tarifária (MFN — Most Favoured Nation).
O argumento antitruste da hotelaria
O argumento central das entidades repousa sobre dois pilares: a posição dominante da plataforma e o efeito coercitivo do aumento.
Sobre a posição dominante: com 40% a 60% das reservas via OTA no Brasil, a Booking opera como infraestrutura essencial de distribuição para grande parte da hotelaria nacional, especialmente os hotéis independentes. Essa posição é reforçada pelas cláusulas de paridade tarifária, que limitam a capacidade dos hotéis de oferecer tarifas mais competitivas em seus próprios canais ou em plataformas concorrentes.
Sobre o efeito coercitivo: hotéis que optarem por não aderir ao Preferred Partner Program e, portanto, não pagar a comissão de 18%, perdem posicionamento nas buscas da plataforma — o que afeta diretamente a visibilidade e, em consequência, a taxa de ocupação. A adesão, na prática, não é uma escolha livre: é uma escolha entre pagar mais ou perder exposição.
A posição da Booking.com
Em resposta às contestações, a Booking.com confirmou o reajuste e apresentou as seguintes justificativas: a taxa padrão no Brasil seguirá em 15%, e os 18% se aplicam exclusivamente ao programa Preferencial; a atualização é necessária para sustentar investimentos contínuos, incluindo novas ferramentas de pagamento, infraestrutura e suporte 24/7 em 45 idiomas; a plataforma manteve suas condições comerciais inalteradas no Brasil por 12 anos; e o Brasil era o último país das Américas a receber essa atualização.
A empresa reforça ser um canal de marketing baseado em performance — os parceiros só pagam após a receita ser gerada — e afirma estar aberta ao diálogo com o setor.
Um cenário internacional adverso para a plataforma
A ação no CADE não chega isolada. Na Europa, a Booking enfrenta um conjunto crescente de pressões regulatórias e judiciais. Na Espanha, mais de 1,4 mil empresas hoteleiras e de turismo se organizam em ação coletiva alegando práticas comerciais abusivas ao longo de anos, com foco nas cláusulas de paridade tarifária. A estimativa de recuperação gira em torno de 7,3% das comissões pagas historicamente. Há ainda multa recorde aplicada na Espanha, intervenção de preços na Suíça e investigação antitruste aberta pela autoridade italiana em abril de 2026.
Hoteleiros europeus também articulam ação coletiva em escala maior para recuperar até 30% das comissões pagas desde 2004, sob alegação de práticas anticompetitivas. Só na Alemanha, com cerca de 2.000 hotéis participantes, o dano estimado alcança 750 milhões de euros.
O que muda na prática para hotéis e pousadas
Independentemente do desfecho no CADE — que pode levar meses ou anos para ser definitivo —, a realidade operacional já mudou. A comissão está vigente. E o impacto é mais visível em três perfis de propriedade.
Hotéis independentes com alta dependência da Booking. Quem opera com 60%, 70% ou mais das reservas via plataforma sente o impacto imediato na margem, sem capacidade de negociação individual.
Hotéis que nunca priorizaram canal direto. A situação expõe uma fragilidade estrutural: sem base própria de hóspedes, sem motor de reservas funcional e sem presença ativa no Google Hotéis, o hotel não tem alternativa viável de curto prazo.
Hotéis que já investiam em diversificação. Essas propriedades chegam ao momento com mais fôlego. A comissão mais alta diminui a margem no canal afetado, mas a receita via canal direto ou outros canais compensa parcialmente o impacto.
O que fazer agora
A ação das entidades no CADE é o caminho institucional. Para o gestor individual, o caminho complementar é operacional.
Calcular o impacto real na sua operação. Percentual de reservas via Booking × receita média × diferença de comissão. O número concreto diz quanto custa a dependência e quanto seria recuperado com a redistribuição de canais.
Rever a participação no Preferred Partner Program. Alguns hotéis podem decidir que o custo de 18% não se justifica pela visibilidade adicional — e que a posição padrão (15%) ou a redução de dependência da plataforma geram resultado melhor no longo prazo.
Reforçar canal direto com urgência. Motor de reservas funcional, Google Hotéis atualizado, comunicação ativa com a base de hóspedes (CRM, WhatsApp, e-mail) e paridade tarifária bem gerida são os pilares.
Diversificar canais. OTAs alternativas, parcerias com agências receptivas, canal corporativo direto, Google Hotéis e WhatsApp como canal de fechamento distribuem o risco de dependência de uma única plataforma.
Um ponto de inflexão para a distribuição hoteleira brasileira
A ação no CADE pode ou não resultar em suspensão da taxa ou sanções. O que já está definido, independentemente do desfecho jurídico, é que o debate sobre dependência de OTAs ganhou novo capítulo — com dados, cálculos e respaldo institucional.
Para a hotelaria brasileira, esse momento funciona como catalisador. A conversa sobre canal direto e diversificação de distribuição deixou o campo teórico e virou urgência financeira e estratégica. Quem sair desse ciclo com operação menos dependente de uma única plataforma chega ao próximo ano em posição estruturalmente mais forte.
Sobre a HQBeds
A HQBeds é a plataforma de gestão hoteleira all-in-one que conecta PMS, Channel Manager, Motor de Reservas, Check-in Online, Pagamentos e Notas Fiscais em um único ambiente. Atende hotéis independentes, pousadas, hostels e portfólios de imóveis por temporada de todo o Brasil, ajudando gestores a aumentar reservas diretas, reduzir tarefas manuais e crescer com mais previsibilidade.
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