Hotelaria brasileira aciona o Cade contra aumento de comissão da Booking.com

HQBeds • 14 de julho de 2026

A partir de 1º de julho de 2026, hotéis e pousadas que participam do programa Preferencial da Booking.com no Brasil passaram a pagar uma comissão de 18% sobre o valor bruto das reservas — um salto em relação à faixa anterior, que variava entre 10% e 15% conforme o acordo comercial de cada propriedade. A mudança foi comunicada às propriedades em 26 de maio, com menos de 60 dias de antecedência e sem negociação prévia com entidades representativas do setor.

A reação não demorou. A Federação Nacional de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares (FBHA), o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), a ABIH Nacional, a Associação Brasileira de Resorts (ABR) e a Brasil Luxury Travel Association (BLTA) se uniram em manifesto conjunto pedindo o adiamento do reajuste para 2027 e a abertura de uma mesa de negociação. As mesmas entidades protocolaram uma representação formal junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), alegando abuso de posição dominante.

O impacto na prática

Para dimensionar o efeito, o setor tem usado como referência uma pousada com 20 unidades habitacionais, diária média de R$ 350 e taxa de ocupação de 70%: o aumento de comissão representa cerca de R$ 2.450 a mais saindo do caixa todo mês — sem que a propriedade tenha vendido um quarto a mais ou mudado sua operação. Multiplicado pela base de meios de hospedagem que dependem fortemente da plataforma, o impacto agregado é significativo, especialmente para empreendimentos de pequeno e médio porte, que costumam ter menos poder de negociação com grandes agências online.

Por que isso chegou ao Cade

A representação apresentada pelas entidades do setor argumenta que o reajuste unilateral, aplicado sem espaço para negociação individual e em prazo curto, fere princípios de livre concorrência e coloca hotéis independentes em desvantagem frente à sua principal via de distribuição digital. Cabe agora ao órgão avaliar se há elementos que justifiquem a abertura de um processo administrativo — caminho que pode levar meses, mas que já sinaliza uma mudança de postura do setor, historicamente mais reativo diante de decisões unilaterais das plataformas de reserva.

O que gestores de hospedagem podem fazer agora

Independentemente do desfecho no Cade, o episódio reforça uma lição estrutural: quanto maior a dependência de um único canal de distribuição, menor a margem de manobra do hoteleiro diante de mudanças unilaterais de comissão. Três frentes costumam fazer diferença nesse cenário:

  • Rever a matriz de canais, avaliando o peso real de cada agência online na receita e o custo efetivo de cada reserva depois da comissão.
  • Investir em reserva direta, com motor de reservas integrado ao site e ao sistema de gestão da propriedade, garantindo paridade tarifária e uma experiência de compra tão simples quanto a de um canal terceiro.
  • Usar o histórico de hóspedes para criar programas de fidelidade ou benefícios exclusivos que incentivem a reserva direta na próxima estadia.

O que observar nas próximas semanas

Vale acompanhar três desdobramentos: se o Cade decide abrir processo administrativo formal contra a Booking.com; se a plataforma sinaliza alguma flexibilização diante da pressão das entidades; e se outras agências online que operam no Brasil seguem o mesmo caminho de reajuste. O precedente é relevante porque, historicamente, mudanças de comissão de uma grande plataforma tendem a influenciar a política comercial das demais nos meses seguintes.

Conclusão

O episódio da Booking.com é mais um lembrete de que a saúde financeira de pousadas, hotéis e imóveis por temporada passa por diversificar canais e fortalecer a reserva direta. Ferramentas de gestão que integram motor de reservas, channel manager e PMS em um só lugar ajudam o gestor a manter o controle sobre tarifas, disponibilidade e relacionamento com o hóspede, independentemente de para onde sopram os ventos das grandes plataformas.

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