Comissão de 18% da Booking.com entra em vigor e hotelaria aciona o CADE: o que muda para hotéis e pousadas

Marcus Rodrigues • 13 de julho de 2026

Na quarta-feira, 1º de julho de 2026, a Booking.com implementou a nova taxa de comissão preferencial de 18% para os hoteleiros brasileiros participantes do Preferred Partner Program. A taxa padrão para hoteleiros fora do programa permanece em 15%.

A mudança já era esperada. O anúncio havia sido feito em maio, com prazo de menos de 60 dias para adaptação. Sem avanço substantivo na negociação, seis entidades formalizaram a representação no CADE em 23 de junho — dias antes da vigência. A comissão entrou em vigor mesmo assim.

A comissão que entrou em vigor mesmo sob contestação

O contexto em que a vigência se concretiza é de pressão acumulada. Os hotéis brasileiros convivem simultaneamente com a volatilidade do mercado global de viagens, a alta das tarifas aéreas, os custos da implementação da Reforma Tributária e incertezas sobre a regulamentação das jornadas de trabalho — fatores que já comprimem as margens operacionais. A inserção de um novo custo de distribuição no meio do exercício fiscal, sem planejamento orçamentário adequado, é o que o setor classifica como o principal problema operacional da medida.

O que o setor pede ao CADE

A representação protocolada pela FNHRBS, FOHB, ABIH Nacional, ABR, BLTA e FBHA tem quatro pedidos centrais ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica.

Abertura de inquérito ou processo administrativo. Para apurar se a conduta da Booking configura abuso de posição dominante, nos termos da Lei de Defesa da Concorrência (Lei 12.529/2011). A plataforma concentra entre 40% e 60% das reservas intermediadas por OTAs no Brasil, segundo estimativas do próprio setor.

Medida preventiva de suspensão imediata. Pedido para que o CADE suspenda a implementação da taxa de 18% até o julgamento definitivo do caso.

Sanções em caso de comprovação de infração. Multa calculada sobre o faturamento da empresa, restrição a contratos com bancos públicos, além da cessação das práticas apontadas como ilícitas.

Transparência sobre a política comercial. Requisição de dados sobre participação de mercado da Booking no Brasil e contratos-padrão com destaque para as cláusulas de paridade tarifária (MFN).

O argumento antitruste da hotelaria

O argumento central das entidades repousa sobre dois pilares: a posição dominante da plataforma e o efeito coercitivo do aumento.

Sobre a posição dominante: com 40% a 60% das reservas via OTA no Brasil, a Booking opera como infraestrutura essencial de distribuição para grande parte da hotelaria nacional, especialmente os hotéis independentes. Essa posição é reforçada pelas cláusulas de paridade tarifária, que limitam a capacidade dos hotéis de oferecer tarifas mais competitivas em seus próprios canais.

Sobre o efeito coercitivo: hotéis que optarem por não aderir ao Preferred Partner Program perdem posicionamento nas buscas — o que afeta diretamente a visibilidade e, em consequência, a taxa de ocupação. A adesão, na prática, não é uma escolha livre: é uma escolha entre pagar mais ou perder exposição.

Para hotéis com mais de 70% das reservas originadas pela plataforma, a margem de manobra é mínima. Um hotel com receita mensal de R$ 150 mil e metade das reservas via Booking passará a desembolsar aproximadamente R$ 27 mil adicionais por ano apenas em comissão.

A posição da Booking.com

Em resposta às contestações, a plataforma confirmou o reajuste e apresentou as seguintes justificativas: a taxa padrão no Brasil seguirá em 15%, e os 18% se aplicam exclusivamente ao programa Preferencial; a atualização é necessária para sustentar investimentos contínuos em ferramentas de pagamento e infraestrutura; a plataforma manteve suas condições comerciais inalteradas no Brasil por 12 anos; e o Brasil era o último país das Américas a receber essa atualização.

Um cenário internacional adverso para a plataforma

A ação no CADE não chega isolada. Na Europa, a Booking enfrenta pressões regulatórias e judiciais crescentes. Na Espanha, mais de 1,4 mil empresas hoteleiras e de turismo se organizam em ação coletiva alegando práticas comerciais abusivas ao longo de anos. A estimativa de recuperação gira em torno de 7,3% das comissões pagas historicamente. Há ainda multa recorde na Espanha, intervenção de preços na Suíça e investigação antitruste aberta pela autoridade italiana em abril de 2026.

Hoteleiros europeus também articulam ação coletiva para recuperar até 30% das comissões pagas desde 2004. Só na Alemanha, com cerca de 2.000 hotéis participantes, o dano estimado alcança 750 milhões de euros.

O que muda na prática para hotéis e pousadas

Independentemente do desfecho no CADE, a realidade operacional já mudou. A comissão está vigente. O impacto é mais visível em três perfis de propriedade.

Hotéis independentes com alta dependência da plataforma. Quem opera com 60%, 70% ou mais das reservas via OTA sente o impacto imediato na margem, sem capacidade de negociação individual.

Hotéis que nunca priorizaram canal direto. A situação expõe uma fragilidade estrutural: sem base própria de hóspedes, sem motor de reservas funcional e sem presença ativa no Google Hotéis, o hotel não tem alternativa viável de curto prazo.

Hotéis que já investiam em diversificação. Essas propriedades chegam ao momento com mais fôlego. A comissão mais alta diminui a margem no canal afetado, mas a receita via canal direto ou outros canais compensa parcialmente o impacto.

O que fazer agora

A ação das entidades no CADE é o caminho institucional. Para o gestor individual, o caminho complementar é operacional.

Calcular o impacto real na sua operação. Percentual de reservas via OTA × receita média × diferença de comissão. O número concreto diz quanto custa a dependência e quanto seria recuperado com a redistribuição de canais.

Rever a participação no programa preferencial. Alguns hotéis podem decidir que o custo de 18% não se justifica pela visibilidade adicional — e que reduzir a dependência da plataforma gera resultado melhor no longo prazo.

Reforçar canal direto com urgência. Motor de reservas funcional, Google Hotéis atualizado, comunicação ativa com a base de hóspedes (CRM, WhatsApp, e-mail) e paridade tarifária bem gerida são os pilares.

Diversificar canais. OTAs alternativas, parcerias com agências receptivas, canal corporativo direto e WhatsApp como canal de fechamento distribuem o risco de dependência de uma única plataforma.

Um ponto de inflexão para a distribuição hoteleira brasileira

A ação no CADE pode ou não resultar em suspensão da taxa ou sanções à plataforma. O que já está definido é que o debate sobre dependência de OTAs ganhou novo capítulo — com dados, cálculos e respaldo institucional.

Para a hotelaria brasileira, esse momento funciona como catalisador. A conversa sobre canal direto e diversificação de distribuição deixou o campo teórico e virou urgência financeira e estratégica. Quem sair desse ciclo com operação menos dependente de uma única plataforma chega ao próximo ano em posição estruturalmente mais forte.

Sobre a HQBeds

A HQBeds é a plataforma de gestão hoteleira all-in-one que conecta PMS, Channel Manager, Motor de Reservas, Check-in Online, Pagamentos e Notas Fiscais em um único ambiente. Atende hotéis independentes, pousadas, hostels e portfólios de imóveis por temporada de todo o Brasil, ajudando gestores a aumentar reservas diretas, reduzir tarefas manuais e crescer com mais previsibilidade.

Quer entender como a HQBeds pode apoiar a sua operação? Conheça a plataforma.

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