Orçamento 2026 do Turismo: setor pleiteia R$ 10,6 bilhões em emendas, mas relator só consegue atender R$ 28 milhões
As comissões permanentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal apresentaram, durante a tramitação do Orçamento Geral da União para 2026 (PLN 15/25), um pedido conjunto de emendas no valor de R$ 10,6 bilhões para a área de turismo. O número refletia, segundo lideranças setoriais, a leitura de que o setor está em um momento de demanda e potencial expressivos, mas com infraestrutura, promoção e capacidade de fomento ainda insuficientes.
O resultado da negociação, no entanto, ficou bem abaixo do pleiteado. Após remanejamentos e cancelamentos no relatório setorial, o relator do turismo no orçamento, deputado Acácio Favacho (MDB-AP), só conseguiu atender R$ 28 milhões — diferença de mais de 99,7% em relação ao valor inicialmente solicitado.
Em seu relatório, Favacho pediu ao relator-geral do orçamento, deputado Isnaldo Bulhões Jr. (MDB-AL), que busque mais recursos para o turismo. O relator descreveu o setor como "historicamente subfinanciado", em uma sinalização que ecoa diagnósticos repetidos por entidades como FOHB, ABIH, Resorts Brasil e FBHA ao longo dos últimos anos.
Um pedido de R$ 10,6 bilhões, uma resposta de R$ 28 milhões
A magnitude da diferença chama atenção mesmo em um cenário fiscal apertado. Em valores absolutos, R$ 28 milhões equivalem a uma fração mínima do orçamento total da União para 2026 e representam menos do que o investimento total previsto para a abertura de um único hotel de médio porte no país.
Em termos relativos, a relação entre o que se pede e o que se concede sinaliza prioridades. Setores que se mobilizam em bloco e conseguem fazer chegar dados, articulação política e narrativa pública costumam obter melhor resultado nessa disputa. Para o turismo, é um chamado à organização contínua.
Contradição entre força do mercado e suporte do Estado
O ponto que torna o número incômodo é a diferença entre o ritmo do mercado turístico brasileiro e o ritmo do investimento público. Em 2026, o Brasil deve ultrapassar pela primeira vez a marca de 10 milhões de turistas internacionais, projeção sustentada pelo recorde de 3,74 milhões de visitantes estrangeiros apenas no primeiro trimestre. A hotelaria projeta R$ 13,6 bilhões em investimentos privados em 178 novos hotéis, segundo a 20ª edição do Panorama da Hotelaria Brasileira.
Em paralelo, o turismo doméstico mantém ciclo positivo, beneficiado por dólar alto, calendário favorável de feriados, alta da demanda regional e descentralização dos investimentos. Em outras palavras: o setor está crescendo de forma orgânica, mas o investimento público segue muito aquém do potencial.
Esse descompasso não é novo. Estudos da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e de entidades setoriais apontam, há anos, que o orçamento federal destinado ao turismo no Brasil é pequeno em comparação ao tamanho do setor — o turismo responde por mais de 7% do PIB nacional e gera milhões de empregos diretos e indiretos.
O que está em jogo no orçamento setorial do turismo
O Orçamento da União para o turismo financia, em linhas gerais, quatro grandes frentes. Cada uma delas tem efeito concreto sobre a operação de hotéis, pousadas, hostels e o trade como um todo.
Promoção internacional. Recursos para a Embratur, campanhas no exterior, participação em feiras internacionais e ações de posicionamento da marca Brasil. É a frente que mais diretamente influencia o fluxo de turistas estrangeiros — e o gasto desses visitantes no país.
Infraestrutura turística. Sinalização, requalificação de centros históricos, melhoria de acesso a destinos, segurança turística e estruturas de apoio em polos receptores. Sem essa camada, o gargalo aparece exatamente onde o hóspede chega ao território.
Fomento e crédito. Programas de financiamento via BNDES, Caixa, Banco do Brasil e bancos regionais para construção, reforma e modernização de empreendimentos hoteleiros. Em ciclos de pressão sobre crédito privado, essa frente faz diferença concreta.
Qualificação profissional. Programas de capacitação para recepção, governança, alimentos e bebidas, gestão hoteleira. Em um setor com turnover alto, qualificação contínua é diferencial competitivo.
Quando o orçamento aperta, todas essas frentes operam abaixo da capacidade necessária. O resultado, para o gestor de hotel ou pousada, é menos demanda capturada do exterior, gargalos de infraestrutura no destino, crédito mais difícil para investir e menos mão de obra qualificada disponível.
O que o setor vem pedindo
Em audiências públicas e documentos técnicos entregues ao Congresso ao longo de 2025 e 2026, entidades do trade vêm defendendo quatro pontos centrais para um orçamento setorial mais consistente.
Orçamento estável e previsível. Sem oscilações bruscas entre anos, que dificultam o planejamento de campanhas de longo prazo e programas continuados.
Vinculação a indicadores de desempenho. Orçamento amarrado a metas de crescimento de fluxo turístico, geração de empregos e divisas, em vez de definido apenas por barganha política anual.
Programas estruturantes. Em vez de pulverização em pequenas emendas, foco em programas de médio e longo prazo que produzam efeito mensurável (promoção internacional sustentada, qualificação em escala, requalificação de destinos prioritários).
Articulação com investimento privado. Mecanismos que combinem recursos públicos e privados (PPPs, fundos de fomento, programas regionais de incentivo) para multiplicar o impacto de cada real investido.
Implicações práticas para o gestor de hotelaria
Para o gestor de hotel, pousada ou hostel que opera no dia a dia, a discussão do orçamento federal pode parecer distante. Não é. O orçamento setorial influencia diretamente quatro variáveis com impacto operacional.
Captação de hóspedes internacionais. A intensidade da promoção internacional brasileira no exterior afeta quanto fluxo de argentino, chileno, americano, europeu e asiático chega ao Brasil. Em ano de orçamento apertado, a Embratur tem menos margem para campanhas internacionais — e isso volta como menos hóspede no balcão da propriedade.
Qualidade do destino. Sinalização, acessos, segurança, programa cultural, calendário de eventos — tudo isso depende, em parte, de recurso público. Destino bem cuidado vende a si mesmo; destino abandonado é cobrado do hotel local.
Acesso a crédito. Programas de financiamento hoteleiro, especialmente para reformas e expansão de pequenas e médias propriedades, dependem de linha de fomento. Quando o orçamento aperta, essas linhas demoram, encolhem ou desaparecem.
Disponibilidade de equipe qualificada. Programas federais de qualificação em hotelaria (Pronatec Turismo, parcerias com Sistema S, programas regionais) reduzem o custo de formar equipe própria. Sem esses programas, a conta volta para a operação.
Como o setor pode acompanhar e influenciar o tema
Para gestores que querem se envolver com a discussão de políticas públicas para o turismo, há quatro caminhos práticos.
Acompanhar entidades setoriais. FOHB, ABIH, Resorts Brasil, FBHA e ABRASEL produzem material técnico e participam ativamente da articulação em Brasília. Inscrever-se nas comunicações dessas entidades é o caminho mais direto para receber informação qualificada.
Engajar com a comissão de turismo local. Câmaras municipais e assembleias estaduais costumam ter comissões de turismo. Participação nessas instâncias amplifica a voz do gestor.
Participar de consultas públicas. Embratur, MTur e órgãos estaduais abrem periodicamente consultas sobre planos plurianuais, programas e diretrizes. Participação coletiva influencia.
Contribuir com dados. Em audiências públicas e processos de negociação, dados concretos de operação (geração de empregos, receita, ocupação, gasto médio) pesam mais que discurso. Cada propriedade tem informação que, agregada, sustenta argumentos do trade.
A pergunta estrutural
O número do orçamento 2026 do turismo deixa em aberto uma questão de fundo: o Brasil quer ser um país de turismo grande e profissionalizado, ou quer continuar tratando o setor como pauta secundária na disputa por recursos federais? A resposta dada anualmente pelo orçamento sugere uma direção; o crescimento real do setor sugere outra.
Para o gestor de hotel, pousada e hostel, o recado prático é claro: enquanto a discussão estrutural avança em Brasília, a operação precisa estar preparada para crescer com o que tem em mãos — gestão profissional, tecnologia integrada, canal direto fortalecido e equipe qualificada. Quem domina esses elementos atravessa ciclos políticos sem perder ritmo, esperando que o suporte público chegue na velocidade que o mercado merece.
Sobre a HQBeds
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