18 de julho de 2018 Rogério Minhano

Ser voluntário é desenvolvimento pessoal e viver em comunidade

Em janeiro de 2011 eu completei três meses de viagem. Já tinha passado por alguns países, conhecido muita coisa nova e meu inglês já tinha evoluído bastante. Finalmente já conseguia me sentar e conversar com as pessoas ao meu redor sem ficar envergonhado de mim mesmo. Eu já tinha estudado inglês por dois anos e lia bem. Mas a conversação na vida real, com pessoas e sotaques reais, não tem nada a ver com um curso. Nosso cérebro leva um tempo para decifrar a maneira de falar das pessoas e criar um novo padrão de entendimento. Viajar é ótimo nesse sentido. O quarto do hostel é sempre uma miríade de sotaques e gírias que me fez ir do nível básico ao avançado em 90 dias.

Nessa fase da viagem eu já estava cansado de mudar de cama, quarto e cozinha com tanta frequência. Queria parar um pouco, conhecer melhor os lugares e, se possível, entender melhor a cabeça dos locais. Ter a experiência da maneira deles era o mais importante naquele momento. Durante uma trilha no Havaí conheci uma japonesa que, enquanto eu fazia malabarismos para conseguir me manter no budget, ela trabalhava em uma fazenda colhendo frutas no período da manhã e à tarde fazia trilhas e conhecia as ilhas havaianas. O esquema era mais ou menos assim: havia uma organização chamada WWOOF. Ela se inscrevia para ter acesso às propriedades, escolhia as que mais gostava e entrava em contato por e-mail. Passados alguns dias, as pessoas respondiam e ela escolhia a melhor opção. Fantástico! Naquele dia voltei para o hostel, criei minha conta, e comecei a disparar e-mails. WWOOF é uma plataforma para se voluntariar em fazendas orgânicas, coisas ligadas a sustentabilidade e afins. Os voluntários são chamados de wwoofers e era isso que eu pretendia ser.

Meu próximo destino era a Austrália e uma das pessoas que abriram as portas para mim foi um australiano que vivia na Gold Coast, estava construindo uma casa no campo e precisava de mão de obra. Seu nome era “Des”. Era uma situação muito interessante porque ele mesmo estava construindo. Não tinha empreiteiro, pedreiro, encanador, nada disso. Ele estudou tudo, comprou o terreno em uma floresta e começou a construir. Na altura a casa já estava pronta e o próximo passo era fazer a varanda com um deck de madeira. No e-mail ele disse que havia encontrado madeira recuperada de uma ferrovia e o trabalho seria cortar, lixar, montar o deck e envernizar. Eu aceitei a proposta e ele me pediu urgência. Outros dois voluntários aceitaram e seríamos uma equipe de 4 pessoas por um mês. Passados três dias eu estava lá. O quarto era simples e a casa estava em construção. O homem já tinha uns 60 anos e estava sozinho. Esperamos mais um dia e nenhum dos outros voluntários chegou. Ele me disse que estava acostumado com os furos e que nós começaríamos a trabalhar no dia seguinte. Eu adorei ele, gosto de gente assim, que mete as caras e não tem tempo ruim.

Esse mês que passei no interior da Austrália foi muito importante para meu desenvolvimento pessoal. Lá não havia internet, tudo era longe. Nós íamos a vila mais próxima somente às sextas feiras porque tinha um mercado, uma biblioteca que emprestava livros e um cineminha local que os velhinhos se reuniam para tomar chá e ver filmes antigos. Nós comprávamos mantimentos para a semana, eu comprava umas cervejas (ele não bebia) e no dia seguinte estávamos de volta ao trabalho. Foi o mês todo construindo aquele deck.

Depois que aprendi o caminho fui voluntário em vários lugares. Clínicas de reabilitação, Ashram e uma cidade sustentável chamada Auroville. Se você quer mesmo conhecer um lugar, vá lá e passe um tempo trabalhando com as pessoas. A profundidade da experiência é outra. É no trabalho que estão nossos valores principais e é em busca desse conhecimento que se deve ser voluntário.

Quando abrimos o Café Hostel, começamos de cara um programa de voluntariado. Eu vi o que aconteceu comigo acontecer com os outros. Vi pessoas desabrocharem, nascerem novamente a partir daquilo. É incrível como uma experiência, por mais curta que seja, pode mudar a vida da gente. Nós tivemos muitos voluntários e pouquíssimas experiências ruins. Muitos deles são nossos amigos até hoje. Ter voluntários não tem nada a ver com não pagar impostos. Em alguns lugares isso pode ser ilegal, mas nunca imoral. Ser voluntário é se abrir para o mundo e a partir disso descobrir caminhos alternativos para o seu futuro.

O hq é o único sistema que permite a você administrar também seus voluntários. Como eu já disse em outros artigos, o hqbeds cuida de todos os aspectos da sua propriedade.

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Rogério Minhano
Rogério Minhano Empreendedor, viajante, programador, sócio do Café Hostel e co-fundador da hqbeds. Nada melhor que uma boa conversa e uma cerveja gelada.

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